Cortesia dos tímidos

Lamento a ausência de um super herói tímido. O seu poder? Congelar as nuances que fugissem ao seu controle. Bastava um pequeno embaraço para acionar o dote nos ânimos e depoentes de cada lance.

O empenho mágico seria capaz de emanciapar os seres à margem do convívio social. Como uma forma de cristalizar as abstrações, um tanto incógnitas, dos tímidos.

Vale salientar a fragilidade do elemento frio. Chega um momento que o gelo derrete e os conflitos reaparecem. O poder então não seria definitivo, mas um respiro para readimição.

Saldando a fantasia, surpreendo-me ao constatar que o poder de fato existe. É só espiar.

Passos rápidos, ombros exaltados e olhar evasivo configuram o paladino austral, aquele que um dia lhe ofereceu um gelo.

Diferente da fantasia, não há como refrear os lances da vida. O restauro em forma de calor irradia bem devagarzinho; a substituir os deslizes pela coragem e sensatez.

A tão sonhada integração pública, em verdade, envolve o juízo dos próprios ribeirinhos, como uma metalinguagem receptiva ao endosso.

De tal forma, o herói restituído regularia a temperatura por onde passasse, pela mérito da própria vida.

Imagem: Tímido osito marinero.


Até logo!

O eu (des)legítimo


Em minha defesa, tudo que eu sei sobre você.

Prezada,

Não tem sido fácil acompanhar tantos avanços. Desde que você foi desafiada a me deixar, conduta desleal de quem não me conhece, o nosso vínculo ficou mais distante.

Éramos tão felizes! Eu trazia os frutos do meu olhar analítico, vendava os teus olhos e tu obedecias a mim.

Já não é tão fácil como antes. A minha presença, como bem sabes, é para o teu bem. Nada melhor para evitar o fracasso do que paralisar qualquer projeto.

Ou colocar o teu futuro sob as circunstâncias do presente, afinal de contas, quem me garante que consigas qualquer coisa até lá?

Não pense que eu não sei da tua maior conquista, embora tema pelas próximas.

Será capaz de conseguir realizar os teus sonhos com esse tanto de talentos miúdos, dificilmente vendáveis? Por isso questiono a ti nos dias que tens me permitido, apenas para o teu bem.

Acredito no nosso enlace e que ele não chegará ao fim. Peço-lhe que me respondas em respeito ao que tenho dito.

Att,

Meu eu (des)legítimo.


RE: Em minha defesa, tudo que eu sei sobre você.

Prezado,

Não haveria de negar o nosso enlace, embora não tenha sido bom. Chega certo tempo que o conforto da defesa sufoca.

Estava a beira da vida, a reflerir o que achava refletido. Devo dizer que a separação é necessária e vai acontecer a cada dia mais.

Descobri que você diminue quando é exposto. Pode até remexer lá no fundo, mas passa.

Vá embora e não me amole nunca mais!

Att,

Meu eu num crescendo.


Paz, bem e ousadia.