Vazio

A anestesia aplicada no corpo da minha vida perde o efeito a dois passos da cama, na janela do meu quarto. Parece esquisito, embora a linguagem celeste diga o que é preciso para o conserto da minha alma, sem a paralisia do cotidiano.

Não, não é blefe. Toda noite olho para o céu, sinto a brisa da noite, observo o luar e a velocidade que as nuvens percorrem o espaço à vista. É quase mágico e cada vez mais vital para o meu querido bem-estar.

O que, então, é dito? Anteontem a mensagem veio mediada pelo roxo chuvoso, meio lilás, vento suave e um aroma mal compreendido, a tradução? Mistério, a palavra feito o tudo, fala, mas diz nada.

Ontem o azul cinzento, aquarelado em nuvens grandes apressadas, unidas e bem esparramadas trouxe em aroma de roupa lavada, ao fundo do armário, a mensagem de conforto carecida após assistir Querô.

Ademais a leitura sem palavras, termino o contemplo a cada dia, respiro fundo, pausadamente, e descanso em paz porque vivo em paz. Muito embora o todo a minha volta nem saiba, porque não sente, o que é a paz.

O dado que faz da minha janela o refúgio de um mundo que só deságua ao canto interno dos olhos.

Imagem.: Janeiro de 2021, F. de Santana, Ba. | Como não se perder na leitura deste quadro? Não é a partir do quarto, mas vale a vista |


[…]

Sinto que devo satisfação pelo sumiço e logo explico que a minha escrita não existe sem sentir.

Talvez imagine o hiato como apatia, então, mas não é isso. É que alguns sentimentos são difíceis de traduzir ou até digerir.

O que faço é cozinhar as ideias em fogo lento a fim de apresentar um prato apurado. Nem gelado, nem queimado, na temperatura que sinto os momentos vividos, com o tempero de significado.

Até logo!

O perfume da flor

No alto da ladeira, após a cerca, a janela da casa expunha a metade falante da laranja Melo — o sobrenome sa família.

Maria apreciava a vista da estrada de terra, quando o cheiro da Rosa Amélia anunciou a chegada do amado, Armando.

Há quanto tempo ela não escuta a sutil advertência Fecha a ‘tramela’, Maria(!), no momento do agouro aos dissabores do dia.

E o aroma de alho frito a serviço do mingau de cachorro* que ele tanto comia(?), só eles sabem.

Pois sossegado Armando chegou e foi recebido no sofá a que ela acedia. Pode ficar, aqui cabe nós dois, disse ele ao assentar no móvel, e, ao lado esquerdo do peito dela.

Entre tantos momentos juntos, mais de cinquenta anos, o reencontro durou pouco. O tempo necessário para o abrir dos olhos da Maria, no mesmo lugar do sonho.

|Ele partiu em 2012 e deixou o marco do amor|

*Mingau de cachorro: alho frito, farinha de mandioca, água e sal.

Imagem: arquivo da janela dos Melo, Euclides da Cunha, Bahia, 2017.


No seio materno, minha avó continua firme e o meu avô só aparece a quem nunca fechou a taramela. Afinal de contas, como ela retruca:

— Quê que tem(!)

Até logo!

O porquê

A ideia de uma mídia própria começou no trio a formar Janela (Ja. Ne. e eu), mas o acerto permaneceu estima. O imã para ir sozinha, em primeiro plano. Por isso, revelara.

O que esteve escondido? As respostas vem em seguida.

O sentir a frente de mim se fez (in)satisfeito e (in)seguro, enquando vivia em segundo plano. O tempo. Só o tempo trouxe o rebento desquite: vivaz e amistoso. E o melhor, sem os (in)s.

Eis a carta que me trouxe.

O fordismo cognitivo

Não costome me alongar. Direto ao ponto percebo que o teu sentir é mais astuto do que vagabundo.

Preste atenção nele, sem deixar ser levada. Repeite para o que veio. E siga o caminho que tenho passado.

Leia o que foi notado.

Este é o acesso que tu se faz por ele (o sentir). Divido a forma que consigo ler, creio ter razão. Só um dia lhe confirmarei.

Primeira sentença — fale pouco.

Caso seja preciso, evite contato e preservará o casulo.

Segunda sentença — o pragmatismo da forma correta.

Não se baste com pouco, o aprimoramento é constante. Lembre-se que o dano social é grave, portanto, ajuste-se sempre.

Terceira sentença — a não correspondência

Como forma de penalizar a má conduta ao exposto, crie a pior imagem de si em relação ao outro, sempre.

Enfim … Este é o porquê do blog num despertar para a ansiedade. Caso sinta algo semelhante, procure uma orientação psicológica. Ou alguém a quem confie o não-julgamento, o que estiver ao seu alcance.

Nesta etapa que caibo bem: contei, conto e ainda demando de tudo, e o blog contribuiu muito. Quem sabe não é a sua chance de explorar o seu mundo?


Leu primeiro, né!?

Até logo!