Clube da revelação

Baseado na fotografia acima… A composição me leva a mais um rumo que irei aqui tomar. Talvez como forma de atribuir finalidade ao nome do blog: Revelara. E a motivação devo ao luminoso incentivo da Enfermeira Bruna, do ambulatório pós-transplante.

A última vez que a encontrei, em consulta, ela sugeriu que partilhasse as experiências do meu vai-e-vem rumo ao bem-estar.

Pois escutei, pensei e embrulhei o estímulo na gaveta: ‘quem sabe um dia’, justo pela insistência da resposta em pensamento: ‘nada posso acrescentar…’, enquanto isso o telefone sem fio de casa funcionava a todo vapor.

Veja só: comentei com minha mãe, ela contou para o meu pai que anunciou a Dra. Daniele, a oftalmologista que recuperou a nitidez dos meus olhos. E sabe o que aconteceu? Ele foi apenas ser examinado pela Dra., mas de brinde trouxe mais para o clube: ‘faça isso, Lara!’.

Devo agradecer ao passa-repassa? Enfim… Esse foi apenas um meio para ambientar as narrativas do adiante por aqui. Espero de coração que sirva como apoio a quem possa encontrar.


Imagem: fui até o pé de acerola no quintal criar um índice* para esta publicação, não é que funcionou!

*como uma espécie de pista para a revelação da minha memória. Uma vez que a impressão de retirada da rama “sobre” a tela pode ser vista como uma indicação.

Até logo;)

Lauro de Freitas

Um recadinho. Acertei com um zelador para não deixar o revela parado por muito tempo. Espero que ele seja legal, até logo!

Chegou uma sacola da roça um dia desses. Fui examinar, como bom curioso, e corri para destroçar um exemplar da possível laranja. Não era, a senhora que me atura jurou ser laranja lima. Que desgosto! Só ficou atrás da fruta pão, o juízo até arrepia de imaginar.

Seu Lauro é como me chamam, só para esclarecer, sou de mim mesmo. Um aposentado meio urbano, um tanto rural, que não teme nada. Nem barata voadora. Comigo é uma mão na chinela e outra na raquete; o estralo tem um som bacana. Indico.

Baste de prosa! Venho aqui para cuidar deste blogue pela falta de coisa melhor para fazer. Então mando brasa. Igual a que vivi ontem.

Troquei a água do chuveiro por suor assim que saí do banheiro, sem contar aquele bagaço branco para se expor ao sol, terrível. Não recomendo.

Ainda ontem parecia menino na janela antes de dormir. Nem piscava para ver três cachorros brincando no lugar descabido de um deles. A natureza é mesmo ímpar.

Não entenda mal. Vejo só, ao destinar o lixo para coleta, hoje, fui chamado de vó por um passante motoqueiro; tomei como elogio, vô tem um som estranho.

Tá bom por hoje!

O Lalau cansou, conte por aqui como tem passado os dias.

Até mais ver!

Imagem (capa) & esta

Síntese

Assustada acordou Misel em mais uma noite conturbada. Levantou da cama e sentiu um frio estranho como se vivesse num filme nunca visto. Olhou o próprio rosto no espelho do banheiro e relembrou um lance de uma das noites em estado REM.

Mesmo conhecendo o seu próprio mundo, avistou a janela em busca de um outro prédio. E não viu. O lugar sustentava um parque semelhante a um bosque, pouco apreciado por ela.

Ainda confusa, Misel não encontrou a última carta, muito menos o mural das homônimas de um mesmo remetente. E seguiu o dia a reviver cada lance, crente na simbologia dos sonhos.

Aos ouvintes atentos, Misel deu permissão a escuta de seus pensamentos, em tom de sussurro.

Não me entrego a neuroses, qual o sentido do meticuloso asseio? Um filho? Nunca sonhei em conceber ora em corpo ou em alma. E porque tão angustiado?

As dobraduras alentavam a falta de sentido. A sonhadora Misel ensinava a arte das dobras em cursos virtuais como ofício.

Para tentar espairecer, decidiu sair de casa. Trancou a porta diante da rua, perdida pela falta do costume. Até o ar lhe pareceu estranho, ainda mais a fisgada na consciência seguida pelo pensamento: eu nunca saio de casa.

Distraída de si, Misel inspirou fundo e seguiu a transpor o acesso ao parque. As texturas e cores das plantas a ocupavam neste instante. Enquanto as tonalidades vibrantes anunciavam que já começara a época de Natal.

Mais um passo à frente e a visão a furtou do gracejo, o desafio era um rosto conhecido.

Assustada, Misel fez qualquer gesto e acelerou o passo, sem deixar para trás a expressão aflita de quem a encontrou perdida.

Ela me odeia. Pensa que sou uma louca mal educada. Culpava-se advogando em própria causa.

Caso quisesse falar comigo, sabe bem onde moro. Vivo há doze anos no mesmo espaço. Até a segunda fisgada, seguida do quase grito a estremecer. — DOZE ANOS! — bradou Misel.

Paralisada com os olhos abertos ao máximo, a sonhadora juntou os pontos. O mesmo tempo de egresso do meu suposto filho [em sonho].

A lógica confusa a chamou pelo nome e a fez perceber que o rapaz se chamava Lesí. O justo inverso do seu com a ausência da letra M. A mesma letra que nomeia o rosto conhecido a pouco ao seu lado, Maria.

A face serena esperou Misel se ambientar no presente e colocou a mão sobre o próprio ombro, com o desejo de repetir o gesto à Misel.

— Ainda me lembro do carinho que demonstrava a mim, desde pequena a via pelas ruas, velente como uma amazona. Preciso ir, querida. Deus lhe dê sorte e sabedoria.  — disse Maria ao se despedir.

Amiga antiga da família, vizinha desde sempre da casa onde nasceu e viveu até ano de 2008. A sair para a morada atual em função da partida eterna dos pais.

Ela gosta de mim! Revelou Misel em mais um pensamento. De volta ao seu entorno, libertou um sorriso tão tímido que só a própria mãe conseguiria perceber, caso estivesse viva.

Continuou pelo caminho dividida entre o que via e os detalhes dos seus sonhos. Tudo lhe era novo, porque suas poucas saídas pareciam uma fuga contra o vento.

Estava agora em um diferente enquadramento. A beira do parque, diante da parada de ônibus. O exato lugar em que uma mãe reclamava o filho adelescente. Ambos a espera do coletivo.

— Garoto, VOCÊ É TÃO IMATURO! — berrou a mãe, com a provável razão.

Misel observou cada gesto notando cada lance. Seus olhos viciaram naquele momento; por sorte não foi descoberta. Tarefa reservada a própria consciência, quando a última fisgada a furtou. O M que falta em Lesí é de Maturidade.

[···]

Mais segura do seu ir e vir e não tão receosa das prováveis falhas, Misel voltou aos poucos a ser a própria versão graciosa.  — Bem mais moça do que há doze anos, minha filha. — advertiu Maria.

Imagem.


Para entender melhor o conto, leia também a Tese e a Antítese.

Até logo!

Tratante

Puseram ali uma tela em branco; magicamente gotinhas prateadas a fizeram refletir. Bem ali, sem pedir, ela oferece a arte do instante. Basta aparecer à frente e pronto, toda a técnica é consumada.

Pobre artista, pouco moveu os pincéis e logo obteve a tela finda, manifesta em tons ansiados pela vista. E se viu. Embora não esquecesse as musas que governa.

A pura intenção da alma, as agruras da existência, a fluidez das glórias, a persistência da fraqueza (em segundo plano) e a virtude particular da esperança.

Dissimulada, a tela prata intimida. — Mais um passo e arrebento! Confiante, a arte em forma de gente logo responde. — Pouco importa, ainda não varri onde quer cair. Dispensada, a tela pragueja. — Não faça planos para os próximos sete anos. crashh.

Em cacos ficou a tela, sem abalar a audiência, que repete o mantra assolador de cínicos reluzentes.

Matizo a mais valiosa forma no decorrer da vida, minhas musas não chegam ao seu alcance, hasta luego!

Imagem.


Confie na arte, não na tela.

Até logo!

Riscos nas palavras

Ontem foi um dia mudo, tranquilo, a espreita da porta. Nenhuma inspiração nem cobranças, o que é bom.

Prestes a escurecer, surge um desses aromas misteriosos que despertam sensações. Caso pudesse nomeá-lo, seria um cheiro de verão.

Durante o dia, esta foi a escrita, nada verbal. As linhas no lugar das palavras, sumidas, apareciam para ocupar os tempos de pausa.

Sem muito o que esperar, e o medo em tocar nas coisas, as linhas foram descansar. Acordaram, saciaram a própria sede e a falta do que falar.

Grata, madrugada.
Sempre tão verbal,
escutei o que trazia, escrevi e voltei a dormir.

Paz e bem, em traços ou verbos.

*mais uma vez elas aparecem, ontem elas foram fundamentais, as linhas.

*a samambaia apareceu no quintal naturalmente… a sua autonomia inspira.