A escalada para ninho

Ia a entrar na segunda porta de casa quando uma chave disposta ao lado de dentro impedia a entrada, da minha, ao lado de fora.

Presa por um tempo, arquitetei as mais diversas maneiras de acessar o segundo andar à face do outro lado da porta, incluindo a violência. E lembrei, não como passe de mágica, da escada de construção e da janela no alto que ficara aberta.

Neste tempo há um bom tempo, o sol estava ao meio do caminho e a fome já ultrapassava a chegada, os incentivos certos para a escalada.

Olhos para cima e mãos agarrando os degraus em um desenlace com o triunfo da chegada. Tal como passou a jornada para o então dois mil e vinte.

Neste espaço que adentrei, não o físico, feito um ninho de João-de-barro, estive desde o nascimento. Pouco a pouco os meus pais o ergueram com a matéria prima amor em mais de um lugar no espaço.

E o tempo só fez mostrar o quanto nunca estive sozinha, nem mesmo no dia da escalada porque amor também é confiança: como também viaja muitos quilômetros por semana, doa um pedaço e si e entrega a própria razão em troca do bem de todos.

Aos três passarinhos do meu ninho,

obrigada por tudo!

Imagem: 30, dez. 2020. O ninho de João-de-barro na porta da roça.


A você que destina um pedacinho do seu tempo por aqui, meu muito obrigada!  Fazer parte desta comunidade me fez localizar a minha rota no mapa, bem como outras que admiro de longe.

Mesmo que seja mais um desafio, desejo que seja uma jornada de muita saúde, paz, sabedoria e muitos motivos para sorrir do lado daí.

Com todo o meu respeito a quem sofreu e ainda sofre pelo que passamos este ano, desejo que fique tudo bem!

Que assim seja, um feliz 2021✨

Até logo!

Um passo por vez

Não penso que esta história seja triste e não me arrependo do rumo que ela tomou. Precisava passar por tudo até o hoje estar em pouso.

[…]

Enquanto buscava um adesivo numa gaveta de casa, encontrei o meu primeiro documento de identificação,  a datar o ano de dois mil e sete.

Nesta época, aos 10 anos, praticava ballet num centro cultural, e adorava todo o imaginário em torno da dança. O cabelo impecável, meias sem rasgos em pernas alongadas a desatar en dehors.

Logo à frente do pousio das piruetas, descobri que a sede inclemente, as inúmeras idas ao banheiro e a leveza dos trinta e dois quilos, ressoavam quatro sílabas e um mundo inteiro de novos arranjos: diabetes, tipo 1.

Os treze anos sopraram como um redomoindo nutrido de rejeições e dessaberes, às voltas com o perigoso carboidrato.

No fundo eu sabia dos descompassos, embora não atingisse o ajuste. Precisei abrir os olhos e enxergar uma nuvem cinzenta a ocultar os rostos a minha frente, para empenhar o devido cuidado.

Entre idas e vindas a uma clínica oftalmológica, o meu nome se tornou familiar a todos, bem como o enlevo a cada consulta.

Ainda este ano retornei para revisão. Por um lado eu pensava ‘consigo enxergar, tudo vai bem!’, por outro, ficou a cargo do ‘e se…’.

Logo que a Dra. D pegou a esfera para visualisar minha retina, senti seu sorriso contido atrás da máscara. Quando ela manifestou a bem aventurança, a euforia tomou conta das suas palavras. Dra.D. chegou a balbuciar ao tentar explicar o caso para a sua assistente.

Mais não parou por aí…

Chegou um momento, no ínterim da jornada anterior, que comecei a sentir inapetência e cansaço em demasia. O diagnóstico veio a passos curtos, sem muito a fazer. A hemodiálise foi o próximo salto.

A Dra. I. foi tão doce ao apresentar o tratamento, fazendo-me crer, em fantasia, na regressão da debilidade por si só.

O começo é um pouco triste. Você perde a autonomia de ir vir e se acostuma com a dor. As pessoas, os profissionais, as histórias e até o lúdico da assistência social suavizaram o ano dois mil e dezenove, sem deixar nódoa.

O tempo passou ainda junto à maquina, e a necessidade do transplante despontou. Fiz os exames e ingressei na fila do Sistema Único de Saúde, o tão precioso sistema público brasileiro. A lista única é dividida por Estado, a levar em conta o tempo de permanência, os riscos do procedimento e a localização de cada paciente.

A surpresa se deu pela compatibilidade sanguinea e disposição de toda a família. O escolhido foi o dileto do meu imaginário humano, o meu irmão. Depois dessa atitude, até hoje não consigo mensurar tamanha graça.

Adiante, vejo a diabetes como aliada, uma partner na dança. Entre saltos, tropeços e piruetas, mirabolamos planos que nos tornam a cada dia mais íntimas do melhor compasso a seguir.


Contar essa história me emociona, embora não guarde máguas ou tristezas. A verdade é que a medida em que vivo, me adapato e vou apurando.

Quando passa, fica apenas a sensação boa do momento presente. Não digo que não houve revolta ou lágrimas, mas me setia abraçada por algo tão maior do que eu, a circundar cada passo na maior sutileza.

Como um frescor a tilintar os sinos da vida, eu o clamo Jesus.

Até logo!