O perfume da flor

No alto da ladeira, após a cerca, a janela da casa expunha a metade falante da laranja Melo — o sobrenome sa família.

Maria apreciava a vista da estrada de terra, quando o cheiro da Rosa Amélia anunciou a chegada do amado, Armando.

Há quanto tempo ela não escuta a sutil advertência Fecha a ‘tramela’, Maria(!), no momento do agouro aos dissabores do dia.

E o aroma de alho frito a serviço do mingau de cachorro* que ele tanto comia(?), só eles sabem.

Pois sossegado Armando chegou e foi recebido no sofá a que ela acedia. Pode ficar, aqui cabe nós dois, disse ele ao assentar no móvel, e, ao lado esquerdo do peito dela.

Entre tantos momentos juntos, mais de cinquenta anos, o reencontro durou pouco. O tempo necessário para o abrir dos olhos da Maria, no mesmo lugar do sonho.

|Ele partiu em 2012 e deixou o marco do amor|

*Mingau de cachorro: alho frito, farinha de mandioca, água e sal.

Imagem: arquivo da janela dos Melo, Euclides da Cunha, Bahia, 2017.


No seio materno, minha avó continua firme e o meu avô só aparece a quem nunca fechou a taramela. Afinal de contas, como ela retruca:

— Quê que tem(!)

Até logo!

A escalada para ninho

Ia a entrar na segunda porta de casa quando uma chave disposta ao lado de dentro impedia a entrada, da minha, ao lado de fora.

Presa por um tempo, arquitetei as mais diversas maneiras de acessar o segundo andar à face do outro lado da porta, incluindo a violência. E lembrei, não como passe de mágica, da escada de construção e da janela no alto que ficara aberta.

Neste tempo há um bom tempo, o sol estava ao meio do caminho e a fome já ultrapassava a chegada, os incentivos certos para a escalada.

Olhos para cima e mãos agarrando os degraus em um desenlace com o triunfo da chegada. Tal como passou a jornada para o então dois mil e vinte.

Neste espaço que adentrei, não o físico, feito um ninho de João-de-barro, estive desde o nascimento. Pouco a pouco os meus pais o ergueram com a matéria prima amor em mais de um lugar no espaço.

E o tempo só fez mostrar o quanto nunca estive sozinha, nem mesmo no dia da escalada porque amor também é confiança: como também viaja muitos quilômetros por semana, doa um pedaço e si e entrega a própria razão em troca do bem de todos.

Aos três passarinhos do meu ninho,

obrigada por tudo!

Imagem: 30, dez. 2020. O ninho de João-de-barro na porta da roça.


A você que destina um pedacinho do seu tempo por aqui, meu muito obrigada!  Fazer parte desta comunidade me fez localizar a minha rota no mapa, bem como outras que admiro de longe.

Mesmo que seja mais um desafio, desejo que seja uma jornada de muita saúde, paz, sabedoria e muitos motivos para sorrir do lado daí.

Com todo o meu respeito a quem sofreu e ainda sofre pelo que passamos este ano, desejo que fique tudo bem!

Que assim seja, um feliz 2021✨

Até logo!