Qual o peso da ausência?

Grafite em papel assinado e atribuído a Margaret Keane . Artista americana conhecida pelos grandes olhos das suas obras. Imagem: reprodução Pinterest.

Vamos imaginar

Um garotinho extremamente inteligente. Aos seis anos de idade foi capaz de aprender a ler sozinho, sem nenhum estímulo.

Tão novo e já sentia as sutilezas da vida. O que tinha de astúcia compensava a tremenda falta de recursos. Travesso que só ele. Dizia ter o chifrudo no corpo. Quando atacava, tinha que aprontar. Coitada da vizinhança, Zezé fazia toda a lambança que tinha direito.

O que recebia? Surra.

Um dia teve que mudar de casa com a família. Todos os seus irmãos avançaram sobre as árvores que existiam. Restou para Zezé um pezinho miúdo, sem frutos, de laranja lima. O começo foi só tristeza, queria uma grande árvore. Até fazer amizade com minguinho, seu novo amigo de raiz, caule e folhas.

Zezé é uma doçura, basta observar a relação que tem com seu irmãozinho. Por falta de carinho da família, salvo sua irmã-tutora Godóia. Aprontava para ter pelo menos um título.

As travessuras o afastavam da família, assim como a falta de carinho o permitia fazê-las. Momentos solares de consolo e aventura, que já previam a tempestade. Ele preferia aproveitar. Cresceu e se tornou um homem incompleto, dono de um vazio revestido de tristeza.

The big view (2014) – Margaret Keane. Imagem: reprodução Pinterest.

Paris Hilton sempre foi um escândalo. A primeira inflluencer do mundo, rainha da noite. Pouco atenta ao que fugia do seu universo. Até o dia em que foi ao ar o seu documentário This is ParisYouTube Originals.

O que aparece por lá é uma menina inteligente que ama colagens, restos de pizza e uma vida sem glamour.

Grande empresária conhecida como herdeira da grande rede de hotels Hilton, aprendeu com a avó que poderia ser uma grande estrela, já era próprio dela. A mãe preferia que a filha fosse discreta, elegante, sem nunca demonstrar tristeza.

Para tal, sua educação não compreendia a liberdade que lhe era nata. Paris não aguentou e  se jogou na noite. O prêmio foi a saga dos colégios rurais e isolados americanos, com a doutrina de readequação social.

Fugiu até a última e pior escola, PROVO. Onde sofreu abusos que a aterrorizam até hoje. Imaginar que teria uma vida livre e estrelada, quando saísse, a salvou.

Zezé garotinho fruto da imaginação de José Mauro de Vasconcelos, na obra Meu pé de laranja lima (1968). Paris uma artista bem-sucedida fruto da sua própria imaginação.

O que há, então?

Sempre existe uma razão por trás da revolta. Caso não assistida, pode destruir laços emocionais e afetivos para sempre.

Resistir em silêncio

Cena do filme: O ódio que você semeia (2018). Imagem: reprodução Pinterest.

Um dia olhei numa pilha de livros e tinha uma capa diferente por lá. Passou uns dias e veio a lembrança de um dia ter visto o título em algum canto.

O ódio que você semeia (2017). Comecei a ler, gostei logo de cara. Acabou dias depois. E a sensação foi de quase um atropelo.

O hábito é bom porque agiliza a vida, mas pode abreviar mudanças necessárias. Aqui vai um conselho: Vigiai. Não é uma resenha mas vou contar um pouquinho da história.

A narrativa parte da vida dupla mantida pela protagonista, Starr. Uma jovem de 16 anos norte-americana.

Antes de continuar preciso pontuar o nome do bairro em que ela mora: Garden Heingts, que dá sentido a toda a obra. Angie Thomas, a autora, associa a um jardim no concreto. Um lugar de grandes potencias sob a opressão racial. Sim, Starr e sua comunidade é negra.

Logo na infância ela foi colocada em uma escola privada, com muito esforço dos pais, para amenizar a violência vivida no bairro.

6 anos de frequência na escola, a 40 min de casa, foi o tempo necessário para Starr desenvolver um outro código de conduta, diferente do praticado em casa.

Adeus gírias, olhares, tiradas e olá garota acessível mestre em em segurar a língua e engolir sapos. Tudo para não ser a garota daquele bairro. E o que há de errado nisso?

O problema não é se adaptar para ser entendido. Mas para não transparecer o que não é aceito: uma questão de sobrevivência.

Há alguns dias uma live incluindo Glória Maria virou assunto da vez. A razão? O que foi dito por Glória: “Eu acho tudo isso um saco. Hoje tudo é racismo, preconceito e assédio!”

A polêmica já foi dada. Quem é Glória Maria? Uma jornalista, que cresceu tanto na televisão brasileira que dá para escrever uma enciclopédia só com a trajetória dela.

Os diários de viagem que ela faz? Não tem pra ninguém. E foi assim que a mulher sem idade cresceu em um ambiente que muitos nem sonham.

Não deve ser nada difícil se acostumar com a vida da Glória. Seus planos para o pós-pandemia? Viajar para a Arábia Saudita, Dubai e Taiti.

Lembra da Starr? Ela também passava por situação semelhante. A Starr da escola privada era distante de Garden Heights. Ela só percebeu quando passou por uma tragédia na companhia do seu melhor amigo de infância, esquecido.

Os abaixo-assinados virtuais contra o racismo não eram mais suficientes, Starr precisou gritar.

O livro não traz nenhuma referência a um Estado específico dos Estados Unidos, onde passa a história. Sabe porquê? A autora diz: “Experiências negras são mais universais do que acreditamos ser”. Resultado? O livro ficou semanas como mais vendido na lista do New York Times e até na Alemanha conseguiram situar o ódio que trata Angie, direcionado aos refugiados.