Síntese

Assustada acordou Misel em mais uma noite conturbada. Levantou da cama e sentiu um frio estranho como se vivesse num filme nunca visto. Olhou o próprio rosto no espelho do banheiro e relembrou um lance de uma das noites em estado REM.

Mesmo conhecendo o seu próprio mundo, avistou a janela em busca de um outro prédio. E não viu. O lugar sustentava um parque semelhante a um bosque, pouco apreciado por ela.

Ainda confusa, Misel não encontrou a última carta, muito menos o mural das homônimas de um mesmo remetente. E seguiu o dia a reviver cada lance, crente na simbologia dos sonhos.

Aos ouvintes atentos, Misel deu permissão a escuta de seus pensamentos, em tom de sussurro.

Não me entrego a neuroses, qual o sentido do meticuloso asseio? Um filho? Nunca sonhei em conceber ora em corpo ou em alma. E porque tão angustiado?

As dobraduras alentavam a falta de sentido. A sonhadora Misel ensinava a arte das dobras em cursos virtuais como ofício.

Para tentar espairecer, decidiu sair de casa. Trancou a porta diante da rua, perdida pela falta do costume. Até o ar lhe pareceu estranho, ainda mais a fisgada na consciência seguida pelo pensamento: eu nunca saio de casa.

Distraída de si, Misel inspirou fundo e seguiu a transpor o acesso ao parque. As texturas e cores das plantas a ocupavam neste instante. Enquanto as tonalidades vibrantes anunciavam que já começara a época de Natal.

Mais um passo à frente e a visão a furtou do gracejo, o desafio era um rosto conhecido.

Assustada, Misel fez qualquer gesto e acelerou o passo, sem deixar para trás a expressão aflita de quem a encontrou perdida.

Ela me odeia. Pensa que sou uma louca mal educada. Culpava-se advogando em própria causa.

Caso quisesse falar comigo, sabe bem onde moro. Vivo há doze anos no mesmo espaço. Até a segunda fisgada, seguida do quase grito a estremecer. — DOZE ANOS! — bradou Misel.

Paralisada com os olhos abertos ao máximo, a sonhadora juntou os pontos. O mesmo tempo de egresso do meu suposto filho [em sonho].

A lógica confusa a chamou pelo nome e a fez perceber que o rapaz se chamava Lesí. O justo inverso do seu com a ausência da letra M. A mesma letra que nomeia o rosto conhecido a pouco ao seu lado, Maria.

A face serena esperou Misel se ambientar no presente e colocou a mão sobre o próprio ombro, com o desejo de repetir o gesto à Misel.

— Ainda me lembro do carinho que demonstrava a mim, desde pequena a via pelas ruas, velente como uma amazona. Preciso ir, querida. Deus lhe dê sorte e sabedoria.  — disse Maria ao se despedir.

Amiga antiga da família, vizinha desde sempre da casa onde nasceu e viveu até ano de 2008. A sair para a morada atual em função da partida eterna dos pais.

Ela gosta de mim! Revelou Misel em mais um pensamento. De volta ao seu entorno, libertou um sorriso tão tímido que só a própria mãe conseguiria perceber, caso estivesse viva.

Continuou pelo caminho dividida entre o que via e os detalhes dos seus sonhos. Tudo lhe era novo, porque suas poucas saídas pareciam uma fuga contra o vento.

Estava agora em um diferente enquadramento. A beira do parque, diante da parada de ônibus. O exato lugar em que uma mãe reclamava o filho adelescente. Ambos a espera do coletivo.

— Garoto, VOCÊ É TÃO IMATURO! — berrou a mãe, com a provável razão.

Misel observou cada gesto notando cada lance. Seus olhos viciaram naquele momento; por sorte não foi descoberta. Tarefa reservada a própria consciência, quando a última fisgada a furtou. O M que falta em Lesí é de Maturidade.

[···]

Mais segura do seu ir e vir e não tão receosa das prováveis falhas, Misel voltou aos poucos a ser a própria versão graciosa.  — Bem mais moça do que há doze anos, minha filha. — advertiu Maria.

Imagem.


Para entender melhor o conto, leia também a Tese e a Antítese.

Até logo!

Antítese

Nunca estive longe,
moro a sua porta.
Todos os dias a vejo.
Sempre a limpar.
E a limpar...
Sem fim.

Lesí escrevia cartas diariamente à mãe; quando percebia alguma ofença, amassava e jogava fora. Assim o fez. Sabia que a mãe custava a se recuperar.

Em frases miúdas, pouco dizia sobre si. Ao ponto de um olhar externo atestar os escritos como um ofício de poucos minutos.

Passava, em verdade, dias a fio na missão. A buscar as palavras certas para não ofendê-la, sua maior perturbação.

A última carta reparava a lástima do penúltimo envio:

Mãe,
Meus pés são sujos,
como poderia entrar?
Seu filho,
Lesí.

O filho testemunhou o exato momento em que a mãe o leu e disparou contra a janela. Como poderia conter o rompante da captura? A sair tão apressadamente sem se dar conta do risco de ser visto pela mãe.

Retornou aflito. Imaginava que a carta encontraria as outras no mural da mãe. Dessa vez fui leviano, constatou meio tonto.

Correu de volta, subiu as escadas e entrou em casa. Fechou a porta, sem trancar, e deixou o corpo encontrar o chão, com a carta amassada na mão.

Contra a porta, abraçou o tornezelos a repetir a trajetória do papel.

— Preferia a apatia em vez da repulsa. Agora consegui os dois, murmurou Lesí.

Ficou ali por uma hora. Não dormiu, mal piscou. A fixar os olhos ao nada, relembrando a mesma cena.

Despertou ao lembrar da mais terna memória com a mãe, pouco antes da partida. Quando foi apresentado às dobraduras em papel.

Assim nasceu a última carta, em tom de súplica. Embrulhada na lembrança que o alentou.

Esperou a mãe acabar a assepsia; entregou a carta ao mudo mensageiro, que subiu as escadas e deixou a porta de Misel, tudo em segredo.

Pela instintiva teimosia, Misel custou a ler, a contar quinze dias pelo calendário do filho; enganado, o sol cursou sete vezes.

Por esse tempo, assim que cedeu à leitura, Misel não conteve a emoção. E bem ali, do outro lado da rua, Lesí  se perguntava como recomeçar e o que os isolou.

Imagem.


Aguarde pelo desfecho,

até logo!

A tese

Misel acabara de limpar a casa quando chegou a carta. Viu de quem era e olhou ressabiada. A discreta repulsa a exauriu.

Pousou o escrito na mesinha coberta pelo linho mais querido. Sentou-se a beira, numa poltrona ideal para o pousio. Adormeceu por duas horas,  acordou assustada e deu conta das obrigações; partindo ao banho.

Retornou com o frescor da lavanda exalado pelas costas dos ouvidos. À frente do fogão, Misel manipulava o bule com a água quente a compor o chá do que encontrasse primeiro.

Sem se esquecer um instante do que haveria na carta, os motivos da redação, o estado do filho… Misel desatou a pensar.

Não abrirei. Aposto que a dobradura lhe tomou mais atenção do que o  conteúdo, murmurou Misel.

Quem será Lesí? Perguntava-se sempre. Sabia do menino doce e acanhado, tal como a mãe, que saíra sem mais voltar, aos doze anos.

Motivos não lhe falatava para repelí-lo. Embora se perguntasse, como odiaria um filho. O seu desalento atribuía a falta de notícias.

A contar com poucas e breves cartas a anunciar apenas a sua existência, sem um mínimo de vida. As cartas não recebiam respostas porque não havia aonde enderecer. Perdera o filho querido, sem saber como encontrá-lo.

Desde então, Misel enrugou a própria viveza, destinando-a aos móveis. Nada poderia conter o brilho que lhes devia.

Dias depois…

A leitura da carta a tomou em arbítrio. E a fez.

Mãe,
Deixe que eu a leve. 
Penalizo-me ao não entar.  
Não consigo.
Sinto falta do teu carinho. 
Aquele que tens atribuído a vossa casa.
Envergonho-me ao assumir, mas não consigo.
Venha comigo. Dê um sinal.
Seu filho,
Lesí.

Misel precisou assenta-se, as pernas bambas a estremeceu; as mãos trêmulas endossavam o sobressalto.

Segurava a carta ainda sem acreditar. Pela primeira vez, após a partida, o filho demonstrou afeição.

Conter as lágrimas pareceu impraticável para uma mãe solitária. Precisou aguardar por um tempo até restituir as forças e recompor-se.

Seguiu a passos tontos rumo ao banheiro. Lavou rosto, encarando-o através do espelho. O que deverá fazer, perguntava sem perceber a própria fala.

Imagem (editada).

Continua…


‘Ninguém ingressa no mesmo rio duas vezes, porque as águas e o banhista mudam’.

Fui tomada pelo monstrinho da criação, não sei bem como Heráclito rodeava a mente.

O modo de ser das coisas, segundo pensou, basea-se na tenção de forças opostas rumo ao equilíbrio, um constante inconstante.

Aguarde pelo retorno da antítese e síntese.

Até logo!