Tratante

Puseram ali uma tela em branco; magicamente gotinhas prateadas a fizeram refletir. Bem ali, sem pedir, ela oferece a arte do instante. Basta aparecer à frente e pronto, toda a técnica é consumada.

Pobre artista, pouco moveu os pincéis e logo obteve a tela finda, manifesta em tons ansiados pela vista. E se viu. Embora não esquecesse as musas que governa.

A pura intenção da alma, as agruras da existência, a fluidez das glórias, a persistência da fraqueza (em segundo plano) e a virtude particular da esperança.

Dissimulada, a tela prata intimida. — Mais um passo e arrebento! Confiante, a arte em forma de gente logo responde. — Pouco importa, ainda não varri onde quer cair. Dispensada, a tela pragueja. — Não faça planos para os próximos sete anos. crashh.

Em cacos ficou a tela, sem abalar a audiência, que repete o mantra assolador de cínicos reluzentes.

Matizo a mais valiosa forma no decorrer da vida, minhas musas não chegam ao seu alcance, hasta luego!

Imagem.


Confie na arte, não na tela.

Até logo!

Cortesia dos tímidos

Lamento a ausência de um super herói tímido. O seu poder? Congelar as nuances que fugissem ao seu controle. Bastava um pequeno embaraço para acionar o dote nos ânimos e depoentes de cada lance.

O empenho mágico seria capaz de emanciapar os seres à margem do convívio social. Como uma forma de cristalizar as abstrações, um tanto incógnitas, dos tímidos.

Vale salientar a fragilidade do elemento frio. Chega um momento que o gelo derrete e os conflitos reaparecem. O poder então não seria definitivo, mas um respiro para readimição.

Saldando a fantasia, surpreendo-me ao constatar que o poder de fato existe. É só espiar.

Passos rápidos, ombros exaltados e olhar evasivo configuram o paladino austral, aquele que um dia lhe ofereceu um gelo.

Diferente da fantasia, não há como refrear os lances da vida. O restauro em forma de calor irradia bem devagarzinho; a substituir os deslizes pela coragem e sensatez.

A tão sonhada integração pública, em verdade, envolve o juízo dos próprios ribeirinhos, como uma metalinguagem receptiva ao endosso.

De tal forma, o herói restituído regularia a temperatura por onde passasse, pela mérito da própria vida.

Imagem: Tímido osito marinero.


Até logo!

Tira e põe

O sentido das palavras muda, ou melhor, varia. Não há como sustar, porque até o sinal de alerta não evita a multa. A cargo dos falantes, espere o valor da bronca.

Das vinte e duas definições de máscara, apenas uma aparece à mente. Aposto não ser a única.

Outrora, o trajeto mais seguro consistia em afluência. Por hora, é melhor trocar a rua e seguir a esmo.

Voltadas ao toque, as mãos hesitam. E quando encostam, levantam suspeita. Na dúvida, o álcool virou propício, água e sabão mais ainda.

Até o normal agora é novo, talvez nem tanto, porque já virou osso.

Atada aos olhos

a venda

recaiu à face,

pouco mais abaixo,

e remeteu o brilho que pertence aos olhos.

Imagem.


Sem perder as esperanças,

até logo!

A vida das coisas

Durante o alerta inicial de recolhimento, nos refugiamos num campo bem distante. Para acessar, era precisa deter o passe das autoridades locais. Uma aldeia indígena repleta de centenários, ou quase.

Após dois meses em exílio, o refúgio passou a estar nas redondezas da civilização, a 15 km da Princesa do Sertão.

Pelas mãos de mamãe, a terra voltou a enflorar, os passarinhos a arrevoar, a coruja a visitar as noites e até um galo, apelidado de marreco, decidiu morar por lá.

Entre idas e vindas de deveres pelas pistas de rally, em período chuvoso, a necessidade de retorno ao centro elevou ao dobro.

O regresso cheirava a abandono, o clima de lugar estranho. Bastou um pouco mais de empenho para o lugar urbano dar morada ao recanto.

E na house que um dia foi home, a formiga virou amo, o matagal soberano e até mesmo o marreco, ciscou e deu meia volta.


A imagem traz um pedacinho do segundo refúgio. Até logo!

Hora do chafé

Existem tantas coisas que sabemos, embora muitas vezes não consigamos colocar em prática. Fica a dúvida aonde o sei se encontra com o faço.

Digo isso depois de perceber que dormir é como morrer por algum tempo.

De tanto pensar na verdadeira cor das zebras, as pálpebras perdem as forças  e a consciência vai sumindo até flanar.

No meio tempo, a Terra continua a girar, o tempo a passar, até despertar para o mundo com o pronome meu, predisposto.

Mesmo assim, as zebras ainda preocupam.

Enquanto não há quem alcance a sublime proeza do equilíbrio, fiquemos no mundo das ideias.

A fé como água…

Ela compõe onde é colocada, ganha cores, texturas e aromas diferentes.

Evapora, caso esquecida no tempo. Congela, a depender da passagem. Ebule sob calor intenso, enquanto em falta, nunca sacia.

Na natureza, selvagem ou não, segue rumos e destinos sem fim, traz vida aonde passa e reage caso não preservada.

O acesso fica a critério. Direto ou mediado, também, a depender do cenário.

Uma forma tende a parecer mais vantajosa, prática, pura ou límpida do que a outra. Com respeito, a nascente vive em cada um.

Repleto de água, o corpo é quem diz o uso que faz.

Imagem. Santa Rita do tempo em que a vovó era neta.


Paz e bem em abundância.

O que é brigadeiro?

A alimentação em casa priorizava sempre alimentos que pudussem ser colhidos, as poucas exceções demandavam ocasiões especiais.

Não sei bem como essa latinha de brigadeiro pareceu numa dessas vezes, mas me parece um senso maternal de atenuação das privações. Em composição a máxima: criança ama açúcar.

Voltando ao ocorrido, fica bem claro na embalagem, é brigadeiro. Até então, esse era o sentido da palavra.

Só fui perceber o equívoco durante o recreio na escola, quando o assunto da rodinha foi o bendito doce.

– ... prefiro mais firme, disse uma criança.

Ora! É melhor queimado no fundo, retorquiu outra.

– Não! O bom mesmo é ao ponto de enrolar, sobressaltou uma terceira.

Sem entender as preferências, tive que perguntar! – Aquela latinha?

As reações partiram do estranhamento até a censura, afinal de contas, brigadeiro é a simples mistura, em fogo brando, de achocolatado, leite condensado e manteiga.

Há quem retire, acrescente ou adapte outros ingredientes, porém, esse é o básico.

Pensando bem, o pote continua sendo o que promete, o preparo original também, seja como for.

A verdade é que tudo é certo, a partir de quem e onde se fala.

Paz e bem.

Imagem reprodução: Pinterest.