Corpo

Por Lauro de Freitas

A senhora que me chama de marido disse outrora que não casou com um porco. Achei deselegante da parte dela e me contive, por mais que não tenha casado com uma equina.

Apenas saí do convívio e tornei a pensar o que, de fato, porto ao corpo. E não é pouco.

Lá na infância, quando corria atrás da bola, a divisão se dava em três: cabeça, tronco e membros. Soube logo: o que é nobre fica da cintura para cima e a censura dali para baixo. A possível razão para os marmanjos não devotarem atenção as pernas.

No mercado tem o que custe o olho da cara ou até um rim, pelas ruas as artérias encaminham o fluxo certo a seguir.

Ao Estado, a preferência tem sido lipofóbica, sem excessos, tenho cá minhas dúvidas.

Enquanto a forma, a cor e conservação definem, em absoluto, a espécie de ser vivo que se faz parte. Nesta lógica, sou um porco porque não tenho mais estômago para ser humano.

Imagem 1; imagem 2.

Um grunhido especial do Lalau.

Até mais ver!

A escalada para ninho

Ia a entrar na segunda porta de casa quando uma chave disposta ao lado de dentro impedia a entrada, da minha, ao lado de fora.

Presa por um tempo, arquitetei as mais diversas maneiras de acessar o segundo andar à face do outro lado da porta, incluindo a violência. E lembrei, não como passe de mágica, da escada de construção e da janela no alto que ficara aberta.

Neste tempo há um bom tempo, o sol estava ao meio do caminho e a fome já ultrapassava a chegada, os incentivos certos para a escalada.

Olhos para cima e mãos agarrando os degraus em um desenlace com o triunfo da chegada. Tal como passou a jornada para o então dois mil e vinte.

Neste espaço que adentrei, não o físico, feito um ninho de João-de-barro, estive desde o nascimento. Pouco a pouco os meus pais o ergueram com a matéria prima amor em mais de um lugar no espaço.

E o tempo só fez mostrar o quanto nunca estive sozinha, nem mesmo no dia da escalada porque amor também é confiança: como também viaja muitos quilômetros por semana, doa um pedaço e si e entrega a própria razão em troca do bem de todos.

Aos três passarinhos do meu ninho,

obrigada por tudo!

Imagem: 30, dez. 2020. O ninho de João-de-barro na porta da roça.


A você que destina um pedacinho do seu tempo por aqui, meu muito obrigada!  Fazer parte desta comunidade me fez localizar a minha rota no mapa, bem como outras que admiro de longe.

Mesmo que seja mais um desafio, desejo que seja uma jornada de muita saúde, paz, sabedoria e muitos motivos para sorrir do lado daí.

Com todo o meu respeito a quem sofreu e ainda sofre pelo que passamos este ano, desejo que fique tudo bem!

Que assim seja, um feliz 2021✨

Até logo!

Procura-se

Unhas que aranharam o vão da maçaneta esquerda do automotivo azul.

Paga-se em moedas de luz.

O azul foi a cor que me escolheu, por mais que a negasse ela sempre se fez presente. Em celeste, ciano, marinho ou turqueza enquanto as marcas destino à ausência de um estar escrito.

Durante esses dias completei mais um ano, vi um pássaro em pleno poste e até um arco-íris. Embora tudo parecesse pequeno, do tamanho da liberdade que cabe na palma da mão.

O coração bateu certinho e a energia sobrou para fazer de um tudo além do trivial. Entre encurtar os cabelos e fazer a operação jogo fora o que não serve mais.

O porém veio do peso que abateu o dezembro dois zero-dois zero. Pesado demais para descrever o que causava apenas silêncio.

Quanto mais o tempo passava, mais a pressa quebrava um pedacinho para se desfazer em calma, como o alívio de retirar o curativo de uma moléstia curada.

Enquanto não é possível, deixo para lá os riscos e aperto bem o cinto. Fecho os olhos e a brisa da noite faz zerar qualquer incômodo que devolvo em prece para um raiar de luz como um sol para todos.

[…]

Seja como for tudo permanece azul, espero que esteja bem por aí também.

Imagem: o felino puro em sentimento, Shiro.


Com destino a paz em coro 🍃

até logo!

Lauro de Freitas

Um recadinho. Acertei com um zelador para não deixar o revela parado por muito tempo. Espero que ele seja legal, até logo!

Chegou uma sacola da roça um dia desses. Fui examinar, como bom curioso, e corri para destroçar um exemplar da possível laranja. Não era, a senhora que me atura jurou ser laranja lima. Que desgosto! Só ficou atrás da fruta pão, o juízo até arrepia de imaginar.

Seu Lauro é como me chamam, só para esclarecer, sou de mim mesmo. Um aposentado meio urbano, um tanto rural, que não teme nada. Nem barata voadora. Comigo é uma mão na chinela e outra na raquete; o estralo tem um som bacana. Indico.

Baste de prosa! Venho aqui para cuidar deste blogue pela falta de coisa melhor para fazer. Então mando brasa. Igual a que vivi ontem.

Troquei a água do chuveiro por suor assim que saí do banheiro, sem contar aquele bagaço branco para se expor ao sol, terrível. Não recomendo.

Ainda ontem parecia menino na janela antes de dormir. Nem piscava para ver três cachorros brincando no lugar descabido de um deles. A natureza é mesmo ímpar.

Não entenda mal. Vejo só, ao destinar o lixo para coleta, hoje, fui chamado de vó por um passante motoqueiro; tomei como elogio, vô tem um som estranho.

Tá bom por hoje!

O Lalau cansou, conte por aqui como tem passado os dias.

Até mais ver!

Imagem (capa) & esta

Síntese

Assustada acordou Misel em mais uma noite conturbada. Levantou da cama e sentiu um frio estranho como se vivesse num filme nunca visto. Olhou o próprio rosto no espelho do banheiro e relembrou um lance de uma das noites em estado REM.

Mesmo conhecendo o seu próprio mundo, avistou a janela em busca de um outro prédio. E não viu. O lugar sustentava um parque semelhante a um bosque, pouco apreciado por ela.

Ainda confusa, Misel não encontrou a última carta, muito menos o mural das homônimas de um mesmo remetente. E seguiu o dia a reviver cada lance, crente na simbologia dos sonhos.

Aos ouvintes atentos, Misel deu permissão a escuta de seus pensamentos, em tom de sussurro.

Não me entrego a neuroses, qual o sentido do meticuloso asseio? Um filho? Nunca sonhei em conceber ora em corpo ou em alma. E porque tão angustiado?

As dobraduras alentavam a falta de sentido. A sonhadora Misel ensinava a arte das dobras em cursos virtuais como ofício.

Para tentar espairecer, decidiu sair de casa. Trancou a porta diante da rua, perdida pela falta do costume. Até o ar lhe pareceu estranho, ainda mais a fisgada na consciência seguida pelo pensamento: eu nunca saio de casa.

Distraída de si, Misel inspirou fundo e seguiu a transpor o acesso ao parque. As texturas e cores das plantas a ocupavam neste instante. Enquanto as tonalidades vibrantes anunciavam que já começara a época de Natal.

Mais um passo à frente e a visão a furtou do gracejo, o desafio era um rosto conhecido.

Assustada, Misel fez qualquer gesto e acelerou o passo, sem deixar para trás a expressão aflita de quem a encontrou perdida.

Ela me odeia. Pensa que sou uma louca mal educada. Culpava-se advogando em própria causa.

Caso quisesse falar comigo, sabe bem onde moro. Vivo há doze anos no mesmo espaço. Até a segunda fisgada, seguida do quase grito a estremecer. — DOZE ANOS! — bradou Misel.

Paralisada com os olhos abertos ao máximo, a sonhadora juntou os pontos. O mesmo tempo de egresso do meu suposto filho [em sonho].

A lógica confusa a chamou pelo nome e a fez perceber que o rapaz se chamava Lesí. O justo inverso do seu com a ausência da letra M. A mesma letra que nomeia o rosto conhecido a pouco ao seu lado, Maria.

A face serena esperou Misel se ambientar no presente e colocou a mão sobre o próprio ombro, com o desejo de repetir o gesto à Misel.

— Ainda me lembro do carinho que demonstrava a mim, desde pequena a via pelas ruas, velente como uma amazona. Preciso ir, querida. Deus lhe dê sorte e sabedoria.  — disse Maria ao se despedir.

Amiga antiga da família, vizinha desde sempre da casa onde nasceu e viveu até ano de 2008. A sair para a morada atual em função da partida eterna dos pais.

Ela gosta de mim! Revelou Misel em mais um pensamento. De volta ao seu entorno, libertou um sorriso tão tímido que só a própria mãe conseguiria perceber, caso estivesse viva.

Continuou pelo caminho dividida entre o que via e os detalhes dos seus sonhos. Tudo lhe era novo, porque suas poucas saídas pareciam uma fuga contra o vento.

Estava agora em um diferente enquadramento. A beira do parque, diante da parada de ônibus. O exato lugar em que uma mãe reclamava o filho adelescente. Ambos a espera do coletivo.

— Garoto, VOCÊ É TÃO IMATURO! — berrou a mãe, com a provável razão.

Misel observou cada gesto notando cada lance. Seus olhos viciaram naquele momento; por sorte não foi descoberta. Tarefa reservada a própria consciência, quando a última fisgada a furtou. O M que falta em Lesí é de Maturidade.

[···]

Mais segura do seu ir e vir e não tão receosa das prováveis falhas, Misel voltou aos poucos a ser a própria versão graciosa.  — Bem mais moça do que há doze anos, minha filha. — advertiu Maria.

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Para entender melhor o conto, leia também a Tese e a Antítese.

Até logo!

Tratante

Puseram ali uma tela em branco; magicamente gotinhas prateadas a fizeram refletir. Bem ali, sem pedir, ela oferece a arte do instante. Basta aparecer à frente e pronto, toda a técnica é consumada.

Pobre artista, pouco moveu os pincéis e logo obteve a tela finda, manifesta em tons ansiados pela vista. E se viu. Embora não esquecesse as musas que governa.

A pura intenção da alma, as agruras da existência, a fluidez das glórias, a persistência da fraqueza (em segundo plano) e a virtude particular da esperança.

Dissimulada, a tela prata intimida. — Mais um passo e arrebento! Confiante, a arte em forma de gente logo responde. — Pouco importa, ainda não varri onde quer cair. Dispensada, a tela pragueja. — Não faça planos para os próximos sete anos. crashh.

Em cacos ficou a tela, sem abalar a audiência, que repete o mantra assolador de cínicos reluzentes.

Matizo a mais valiosa forma no decorrer da vida, minhas musas não chegam ao seu alcance, hasta luego!

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Confie na arte, não na tela.

Até logo!

Rápido como uma flecha

Ao pisar em terras euclidenses é preciso de experiência para enfrentar os 30 e poucos quilômetros de um caminho que ainda desconheço, o destino é o povoado Massacará.


Antes de mais nada, uma pausa é necessária. Antes de qualquer juízo, o respeito.


Um, dois, três… Salve eu! dizem as crianças a brincar pelas ruas.

Aqui já se vê que a língua nativa não existe mais. Ou melhor, as quatro palavras restantes queimaram em terras fluminenses, no Museu Nacional (RJ).

Sem desqualificar as singularidades, o falar tem um quê sertanejo com resquícios de quem já morou em São Paulo; e até quem não foi, herdou o R.

Nesse mesmo ritmo, ao invés de ocas existem casas de alvenaria em terra vermelha batida. A assentar subidas, descidas e muitos mistérios.

Como sucedeu lá pelos anos 70, quando o petróleo emergiu transparente. É água, de um vigoroso aquífero que abastece toda a aldeia.

Enquanto a energia elétrica compareceu em 2010, para além da rua (o centro da aldeia). Ocasião que livrou o varal de conservar a carne e transformou a lamparina em objeto decorativo. Só moringa de barro permanece em uso, fonte de água pura e fria.

Caso me pergunte, o que há de único por lá, as respostas vem da natureza: mistérios, forças e cultos que causam um arrepio bom com vontade de quero mais.

Além de um povo que arregaça as mangas para bater (erguer) uma laje e  biatar (peneirar) o feijão dos amigos, é bonito de ver.

E lá pelo fim do dia, os passarinhos retornam aos galhos fartas em fruto e em canto. Uma eufórica conferência sobre os voos do dia.

Tudo enquanto a atmosfera manobra a ampulheta para um novo sábado. O assíduo dia da semana, tal como uma fábula.

Enfim… A passagem foi rápida, assim como as quarenta horas de estada.

Motivações alcançadas, retornamos à noitinha a passar pelas setes curvas com vistas às luzes da cidade sede, Euclides da Cunha, Ba.

Pouco mais de 1.200 moradores, etnia Kaimbé.

Dei um tempo para balançar as ideias, até o rompante dessa viagem vapt vupt me fazer retornar. E foi isso.

Há tanto para contar dos fragmentos que resistiram. Por enquanto, resta a foto distante da igreja da Santíssima Trindade (1639), vista da janela de casa. E outras mais antigas da Várzea, zona mais rural da aldeia.

Até logo!

Antítese

Nunca estive longe,
moro a sua porta.
Todos os dias a vejo.
Sempre a limpar.
E a limpar...
Sem fim.

Lesí escrevia cartas diariamente à mãe; quando percebia alguma ofença, amassava e jogava fora. Assim o fez. Sabia que a mãe custava a se recuperar.

Em frases miúdas, pouco dizia sobre si. Ao ponto de um olhar externo atestar os escritos como um ofício de poucos minutos.

Passava, em verdade, dias a fio na missão. A buscar as palavras certas para não ofendê-la, sua maior perturbação.

A última carta reparava a lástima do penúltimo envio:

Mãe,
Meus pés são sujos,
como poderia entrar?
Seu filho,
Lesí.

O filho testemunhou o exato momento em que a mãe o leu e disparou contra a janela. Como poderia conter o rompante da captura? A sair tão apressadamente sem se dar conta do risco de ser visto pela mãe.

Retornou aflito. Imaginava que a carta encontraria as outras no mural da mãe. Dessa vez fui leviano, constatou meio tonto.

Correu de volta, subiu as escadas e entrou em casa. Fechou a porta, sem trancar, e deixou o corpo encontrar o chão, com a carta amassada na mão.

Contra a porta, abraçou o tornezelos a repetir a trajetória do papel.

— Preferia a apatia em vez da repulsa. Agora consegui os dois, murmurou Lesí.

Ficou ali por uma hora. Não dormiu, mal piscou. A fixar os olhos ao nada, relembrando a mesma cena.

Despertou ao lembrar da mais terna memória com a mãe, pouco antes da partida. Quando foi apresentado às dobraduras em papel.

Assim nasceu a última carta, em tom de súplica. Embrulhada na lembrança que o alentou.

Esperou a mãe acabar a assepsia; entregou a carta ao mudo mensageiro, que subiu as escadas e deixou a porta de Misel, tudo em segredo.

Pela instintiva teimosia, Misel custou a ler, a contar quinze dias pelo calendário do filho; enganado, o sol cursou sete vezes.

Por esse tempo, assim que cedeu à leitura, Misel não conteve a emoção. E bem ali, do outro lado da rua, Lesí  se perguntava como recomeçar e o que os isolou.

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Aguarde pelo desfecho,

até logo!

Chega de cochilos!

Sem perceber, capturei o momento em que acordei para o racismo. A partir da leitura do livro O ódio que você semeia da Angie Thomas (2017). O verbo acordar se refere a um momento de consciência inerte. Exatamente aonde estava.

Não nego as pequenas pistas reunidas com o passar do tempo, ainda é latente a lembrança de uma aula de Sociologia, quando tema apareceu de forma modesta e pontual.

[…]

O calor sombreia cabelos ultra finos e amplos, peles retintas e narizes prontos para respiros em altas temperaturas.

Enquanto o frio delinea cabelos lisos, narizes finos e cores alvas, pelo sol escasso, como forma de proteção as baixas temperaturas.

Nada mais do que a beleza da adaptação humana. Embora não bastasse para o despertar por completo

Foi aqui, através dessa leitura que parcebi a complexidade em torno do racismo. Pelas minúcias a cada instante, vindas de muito tempo.

Os cacos funcionam como o tabaco; socialmente aceito, corriqueiro e maligo. Uma analogia ordinária, assumo, mas a infeliz realidade faz condizer.

A batalha é constante, é preciso estar atento e forte ao passo de cada partida, a fazer o que nos couber.

Imagem.


Em busca da consciência,

até logo!