Um passo por vez

Não penso que esta história seja triste e não me arrependo do rumo que ela tomou. Precisava passar por tudo até o hoje estar em pouso.

[…]

Enquanto buscava um adesivo numa gaveta de casa, encontrei o meu primeiro documento de identificação,  a datar o ano de dois mil e sete.

Nesta época, aos 10 anos, praticava ballet num centro cultural, e adorava todo o imaginário em torno da dança. O cabelo impecável, meias sem rasgos em pernas alongadas a desatar en dehors.

Logo à frente do pousio das piruetas, descobri que a sede inclemente, as inúmeras idas ao banheiro e a leveza dos trinta e dois quilos, ressoavam quatro sílabas e um mundo inteiro de novos arranjos: diabetes, tipo 1.

Os treze anos sopraram como um redomoindo nutrido de rejeições e dessaberes, às voltas com o perigoso carboidrato.

No fundo eu sabia dos descompassos, embora não atingisse o ajuste. Precisei abrir os olhos e enxergar uma nuvem cinzenta a ocultar os rostos a minha frente, para empenhar o devido cuidado.

Entre idas e vindas a uma clínica oftalmológica, o meu nome se tornou familiar a todos, bem como o enlevo a cada consulta.

Ainda este ano retornei para revisão. Por um lado eu pensava ‘consigo enxergar, tudo vai bem!’, por outro, ficou a cargo do ‘e se…’.

Logo que a Dra. D pegou a esfera para visualisar minha retina, senti seu sorriso contido atrás da máscara. Quando ela manifestou a bem aventurança, a euforia tomou conta das suas palavras. Dra.D. chegou a balbuciar ao tentar explicar o caso para a sua assistente.

Mais não parou por aí…

Chegou um momento, no ínterim da jornada anterior, que comecei a sentir inapetência e cansaço em demasia. O diagnóstico veio a passos curtos, sem muito a fazer. A hemodiálise foi o próximo salto.

A Dra. I. foi tão doce ao apresentar o tratamento, fazendo-me crer, em fantasia, na regressão da debilidade por si só.

O começo é um pouco triste. Você perde a autonomia de ir vir e se acostuma com a dor. As pessoas, os profissionais, as histórias e até o lúdico da assistência social suavizaram o ano dois mil e dezenove, sem deixar nódoa.

O tempo passou ainda junto à maquina, e a necessidade do transplante despontou. Fiz os exames e ingressei na fila do Sistema Único de Saúde, o tão precioso sistema público brasileiro. A lista única é dividida por Estado, a levar em conta o tempo de permanência, os riscos do procedimento e a localização de cada paciente.

A surpresa se deu pela compatibilidade sanguinea e disposição de toda a família. O escolhido foi o dileto do meu imaginário humano, o meu irmão. Depois dessa atitude, até hoje não consigo mensurar tamanha graça.

Adiante, vejo a diabetes como aliada, uma partner na dança. Entre saltos, tropeços e piruetas, mirabolamos planos que nos tornam a cada dia mais íntimas do melhor compasso a seguir.


Contar essa história me emociona, embora não guarde máguas ou tristezas. A verdade é que a medida em que vivo, me adapato e vou apurando.

Quando passa, fica apenas a sensação boa do momento presente. Não digo que não houve revolta ou lágrimas, mas me setia abraçada por algo tão maior do que eu, a circundar cada passo na maior sutileza.

Como um frescor a tilintar os sinos da vida, eu o clamo Jesus.

Até logo!

11 comentários

  1. Que história!…

    Olha, a vida sempre irá te exigir muito. Coragem! É igual o Guimarães Rosa fala ” Coragem!”

    Muita sorte na sua vida, menina!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. A vida encarrega-se de nos oferecer obstáculos para nos testar. E a nós, cabe a luta de cada dia a ultrapassar e viver de conquistas e poder contar sobre elas.
    Lara, é uma lutadora e o pensamento positivo é uma ajuda para nos guiar.
    Um abraço forte.

    Curtido por 1 pessoa

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