Cheiro da memória

Noses. Art by Pumpika. Imagem reprodução: Twitter.

Sobre a minha memória

Não linear, sem cronologia ou lembranças completas.

Simplesmente desponta através de um sorvo.

Copia a emoção do momento transpondo em sensação. Boa, ruim ou banal, ela existe e causa efeitos.

Entre idas a vindas na infância a um caminho que passava por uma escola católica, guardei a mais estranha lembrança.

O cheiro de freira.: perfume amadeirado, antigo, quase amargo.

Outras são mais doces como o perfume com aroma de melância que revive o café da manhã em família. Ou o cheiro de um sabonete que leva direto para o repouso das ferias de verão.

É como uma fotografia antiga, sem legenda, que só é lembrada quando não dá para esquecer.

Nem sempre é agradável…

Entre a coletânea há refrescos de uma passado que libertam momentos difíceis.

O diagnóstico era de falência renal, final de 2018. Nesta época usava um perfume herbal. Gostava muito; do tipo que não precisa exagerar para emanar longe.

Todos sentiam o perfume que representava, até então, notas de maturidade.: pó de arroz, seda e bobs nos cabelos.

Hoje, já em paz com a saúde, não consigo mais usá-lo, nem sequer sentí-lo. A sensação é de um ejoo, quase asco.

O lixo foi seu fim, levando consigo qualquer rastro daquele passado.

A memória é assim. Um baú de surpresas. Ora alegres ora difíceis. Viver é tentar admistrar.

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